Gráficos, indicadores técnicos e o triplex na Av. Vieira Souto

*”Antes da década de 60, os brasileiros investiam principalmente em ativos reais (imóveis), evitando aplicações em títulos públicos ou privados. A um ambiente econômico de inflação crescente – principalmente a partir do final da década de 1950 – se somava uma legislação que limitava em 12% ao ano a taxa máxima de juros, a chamada Lei da Usura, também limitando o desenvolvimento de um mercado de capitais ativo. Como consequência poucas empresas tinham as suas ações negociadas nas Bolsas de Valores.

Essa situação começa a se modificar quando o Governo Militar que assumiu o poder em abril de 1964 iniciou um programa de grandes reformas na economia nacional, dentre as quais figurava a reestruturação do mercado financeiro quando diversas novas leis foram editadas.

Entre aquelas que tiveram maior importância para o mercado de capitais podemos citar a Lei nº 4.537/64, que instituiu a correção monetária, através da criação das ORTN, a Lei nº 4.595/64, denominada lei da reforma bancária, que reformulou todo o sistema nacional de intermediação financeira e criou o Conselho Monetário Nacional e o Banco Central e, principalmente, a Lei nº 4.728, de 14.04.65, primeira Lei de Mercado de Capitais, que disciplinou esse mercado e estabeleceu medidas para seu desenvolvimento. Entre essas medidas destacavam-se:

Redução do imposto de renda sobre dividendos: de 40% para 25% no caso das sociedades de capital não aberto; de 25% para 15% (ações ao portador) e isenção (ações nominativas) no caso das sociedades de capital aberto (Decretos-Lei nº401, de 30.12.1968, e nº427, de 8.01.1969);

Mudança na sistemática do Decreto-Lei nº157: elevação de 10% para 12% do benefício concedido às pessoas físicas (em contrapartida, redução de 5% para 3% em 1969 e 1% em 1970, no caso das pessoas jurídicas); permissão para que um terço dos recursos dos fundos de investimento fossem aplicados na compra de ações transacionadas em Bolsa (Decreto-Lei nº403, de 30.12.1968);

Isenção de imposto de renda sobre a incorporação de reservas ao capital social, inicialmente com prazo de validade até 30-06-69 (Decreto-Lei nº401), depois seguidamente prorrogado; (à época muitas empresas cotadas em Bolsa dispunham de vultosas reservas, cuja incorporação reverteria em bonificações aos seus acionistas);

Diminuição da rentabilidade dos títulos de renda fixa: incidência de imposto de renda na fonte, alíquotas diferenciadas (variando de 10% para títulos de 180 dias a 4% para os de prazo igual ou superior a 720 dias), sucessivas reduções das taxas de juros nominais administradas pelo Banco Central (iniciadas com a Resolução nº115, de 1969)”.                   * Fonte: Wikipedia

Quando comecei a trabalhar na corretora M. Marcello Leite Barbosa em 1967, depois de um mês de treinamento com o gerente da área Adolpho de Oliveira operar na mesa de Open Market fui direcionado para trabalhar na mesa de open na sala de operações da corretora, na verdade, um grande salão cuja maior parte era utilizada pelos funcionários da área de bolsa. Era dali que a corretora se comunicava com o pregão no prédio da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro na Praça XV de Novembro no centro da cidade.

predio-antigo- BVRJ-Praça-XV-de-NovembroPrédio antigo da BVRJ na Praça XV de Novembro

BVRJ-pos-reforma-novo

Fotos do antigo prédio da BVRJ depois da reforma

telefone-de-MagnetoTodas as ordens de compra ou de venda dos clientes da corretora eram encaminhadas para a mesa de operações de bolsa da corretora e de lá transmitidas para o pregão por meio de uma linha direta através de um telefone de magneto com uma manivela lateral que ao ser girada tocava numa cabine telefônica da corretora que ficava encostada na parede na área do pregão e depois de cumpridas ou não retornavam para a corretora pelo mesmo caminho.

 

pregao-BVRJA área de Pregão da BVRJ com as cabines telefônicas, o Placar dos negócios e a mesa central onde as boletas eram entregues e os negócios formalizados oficialmente.

Naquela época os negócios eram fechados num grande salão circular com um pé direito de uns 9 metros, situado no andar térreo do prédio da Bolsa de Valores onde ficavam espalhados os diversos postos de negociação em locais criados pelo hábito. Alguns postos eram mais importantes. Os mais barulhentos era aqueles onde eram negociadas as ações de mais liquidez em volta dos quais se formavam grandes rodas de operadores das diferentes corretoras que através da voz (no berro) compravam e vendiam. Havia outras rodas menores onde eram negociadas uma quantidade maior de ações normalmente de menor liquidez pertencentes a alguns setores diferentes que ficavam agrupados e outro local específico para as operações fracionárias. No alto das paredes que circulavam o salão existiam grandes quadros com os nomes das ações negociadas que iam sendo atualizados ao vivo pelos funcionários que moviam os placares para cima e para baixo. Na foto da próxima página poderá ver o pregão no horário de funcionamento:

pregao-da-BVRJ-em-andamentoPregão da BVRJ num dia normal no horário de negociação.

placar-de-negociacoes-parte-superiorplacar-de-negociacoes

 

 

 

 

 

 

Zoom do Placar de Negociações e na foto ao lado sob  o placar a parte superior das cabines telefônicas

As ordens eram executadas no grito entre os corretores que faziam parte das rodas e depois de fechadas eram confirmadas pela assinatura do vendedor no boleto do comprador onde constava a quantidade e o preço da operação fechada. Posteriormente esses boletos eram encaminhados para uma grande mesa que ficava no centro do salão (como poderá ver na foto da área do pregão vazia) e confirmadas oficialmente através de algo parecido com um telex e posteriormente por uma fita perfurada.

A minha mesa de trabalho tinha o formato circular onde podiam se sentar até oito pessoas e ficava a uns três metros de distância da mesa de operações da bolsa.  O barulho era grande, mas com o tempo se acostumava.

Mauricio-Marcello-Leite-Barbosa

Mauricio Marcello Leite Barbosa

Por ser centro nervoso da corretora o salão era o local mais frequentado pelo Dr. Marcello (na foto acima, outra cortesia do Neysinho). Não passava mais de meia hora sem que passasse por lá para saber como estava evoluindo o dia, se estava tudo fluindo bem, como estava o volume de operações das duas mesas, enfim, mais do que ninguém ele sabia que o boi engorda é com o olhar do dono!

Luiz-José-Cabral- de-Menezes

Luiz José Cabral de Menezes

O Dr. Marcello era enérgico, algumas vezes brincalhão, mas um homem muito calmo que transmitia segurança aos seus operadores, sem falar que era um visionário. Estava anos a frente da maioria dos seus concorrentes. A grande expansão da BVRJ na década de 60 ocorreu durante a sua gestão e a do Luiz José Cabral de Menezes (foto acima à direita) como Presidentes do Conselho de Administração da Bolsa do Rio.

A Marcello Leite foi a primeira corretora a ter um computador em 1968. Foi preciso utilizar uma sala grande (uns 40 m2) da corretora para adaptá-la para implantar o futuro. O chão precisou ficar com toda a sua superfície emborrachada, as paredes laterais foram derrubadas e substituídas por paredes de vidro e no centro da sala foram colocadas dezenas de armários de metal com uns dois metros de altura onde ficavam instalados os equipamentos nas diversas prateleiras onde as leituras eram feitas em papéis perfurados e depois convertidos em texto. Dava gosto de se ver quando se caminhava pelo grande corredor da corretora! Hoje o meu notebook tem uma capacidade de memória e velocidade de cálculo infinitamente superior, mas na época era o que havia de mais moderno. Se não me engano era da IBM!

aquario-do-pregaoAquário do Pregão

cotações-na-porta-BCN-na -Rua-do OuvidorTranseuntes vendo cotações na porta do BCN na Rua do Ouvidor

Como a divulgação das cotações e comunicação com as corretoras era muito complicada, a maioria das corretoras destinava uma sala grande na sede para receber os investidores que quisessem operar com mais frequência. Todo muito era muito bem tratado. Garçons passavam com frequência servindo café e água e de vez em quando salgadinhos, poltronas e cadeiras confortáveis, telefone direto para a sala de operações, um painel de cotações atualizado pelo menos de 15 em 15 minutos. Na BVRJ, por sua vez havia uma galeria fechada com vidro no segundo andar apelidada de aquário (conforme pode ver na foto acima à esquerda) que dava uma visão total do pregão e qualquer investidor poderia subir e assistir o pregão de lá. Quando queria passar uma ordem fazia um sinal para o seu operador e ia encontrá-lo na área externa do pregão para lhe transmitir a sua ordem.

Alguns Bancos colocavam um placar com as cotações nas calçadas (conforme pode ver na foto direita acima) que também eram atualizadas de tempos em tempos e sempre estavam cercados por muita gente. Não tenho um registro do número de investidores pessoas físicas no final da década de setenta, mas acho que eram mais do atualmente.

Depois de uns três meses na corretora, já com uma boa retirada mensal, o Dr. Marcello de vez em quando ia até a minha mesa e ficava me sugerindo pegar uma parte da minha grana e comprar umas ações porque segundo ele os preços estavam muito baratos.

Como não conhecia nada sobre ações no início tive muito receio. Mas observando o gráfico da próxima página e imaginando que estávamos em 1967, foi difícil resistir à tentação de comprar umas ações. Ao meu lado todo mundo estava ganhando muito dinheiro. No começo aceitei a orientação do Dr. Marcello, mas depois passei a me orientar com o Dr. Friedman, um alemão naturalizado brasileiro que fazia análises fundamentalistas e escrevia os relatórios da corretora que eram enviados para os clientes.

grafico_site

Comecei a comprar algumas ações e aos poucos fui aumentando a minha carteira sempre com muito sucesso.

Não tenho certeza, mas acho que foi no ano de 1969 que a bolsa criou as operações a termo, a primeira forma de alavancagem nas bolsas brasileiras. A partir de então você podia comprar uma ação para pagar num futuro a ser combinado antes da operação ser fechada, com os prazos mais comuns variando entre 30, 60 e 90 dias. Assim, se uma ação estivesse sendo negociada hoje por R$ 10,00 você se comprometia a pagar os R$ 10,00 acrescido de uma taxa de juros para o período. Se fosse um termo para 30 dias, por exemplo, e a taxa fosse de 2% a.m. teria que comprar até o trigésimo dia por R$ 10,20. Se o preço estivesse mais baixo teria de pagar R$ 10,20 assim mesmo e assumir o prejuízo. Por outro lado se estivesse a R$ 11,00 pagaria os mesmos R$ 10,20 e venderia por R$ 11,00 ganhando os R$ 0,80. Se durante o período de vigência da operação, após o terceiro dia, quisesse encerrar a operação poderia fazê-lo obedecendo ao preço corrente do mercado no dia da liquidação, isto é, vendendo pelo preço do dia, mas pagando ao vendedor o preço contratado para 30 dias sem nenhum deságio.

Na década de sessenta, entre as principais bluechips da bolsa destacavam-se as ações da Belgo Mineira, Brinquedos Estrela, Brahma, Doca de Santos, Acesita, Souza Cruz, etc. e as mais nobres estrelas do mercado eram Banco do Brasil e Petrobrás.

Desde 1963 eu tinha uma namorada com quem me casei em junho de 1968. Lembro-me que uma semana antes do casamento resolvi fazer uma experiência e fiz a minha primeira operação a termo comprando 20.000 ações da Doca de Santos para liquidação em 60 dias a um preço combinado se não me falha a memória de NCr$ 2,08.

Tinha uma tia que possuía um apartamento em Caxambu no Edifício Eli que na época devia ser o mais alto da cidade que me emprestou para passar a minha semana de Lua de Mel. Foi um prédio construído para ser vendido para turistas. Apesar de ter uma pequena cozinha no apartamento, no térreo tinha um grande restaurante para quem não quisesse fazer comida em casa nas férias e era também o único lugar com telefone na redondeza.

Uma manhã enquanto a minha mulher ia tomar banho e se vestir para darmos um passeio, fui dar uma caminhada na Rua do Parque das Águas quando numa Rua perpendicular vi uma pequena barbearia que ficava uns dois degraus abaixo do nível da calçada e que só dava para ver o barbeiro na porta. Decidi fazer a barba e para lá me dirigi. Era uma barbearia com apenas duas cadeiras.

Sentei-me na que o barbeiro me indicou e relaxei. Enquanto colocava uma toalha quente no meu rosto ouvi à minha frente o som suave de uma música. Relaxei mais ainda. Depois que começou a me barbear tocaram mais uma ou duas músicas e de repente entra um locutor e começa a informar ao vivo as cotações das principais ações. Naquela época a Rádio Eldorado, não me lembro se de meia em meia ou de hora em hora, divulgava a cotação das principais ações e por um acaso era a rádio que ele estava ouvindo em Caxambu..

Aquilo me chamou a atenção e fiquei atento. Então ouvi: Doca de Santos NCr$4,20. Quase caí da cadeira! Na hora fiquei em dúvida se tinha ouvido certo. Assim que acabou o corte da barba paguei ao barbeiro e saí andando rápido para o restaurante do prédio em que estava hospedado. Pedi autorização para dar uma ligada rápida para a corretora no Rio de Janeiro. Ao ser atendido me informaram que era aquilo mesmo e na mesma hora mandei liquidar a operação. Considerando que para se fazer uma operação a termo era necessário colocar uma margem de 20% sobre o valor final da operação ou dar ações à vista como garantia. Neste caso, não me lembro de qual era o percentual em relação ao valor de mercado, mas a garantia era um pouco maior.

Como havia feito a minha operação com margem em dinheiro depositei NCr$ 8.320,00 e retirei NCr$ 41.800,00, ou seja, um lucro de 402% em torno de 10 dias! Imagine como foi o resto da minha Lua de Mel! O clima não podia ser melhor!

Terminada a Lua de Mel voltei ao trabalho e aumentei os termos num momento em que a bolsa estava começando uma forte acelerada para cima. Em pouco tempo já estava começando a ficar rico. Ainda morava na Rua Barão da Torre, 100 num apartamento de dois quartos pertencente à minha sogra onde antes do casamento fiz uma reforma. Era um prédio de três andares com pilotis e a garagem ficava no térreo.

Minha mulher estudava no segundo ano da Faculdade de Psicologia da UFRJ na Urca e uma das primeiras providências que tomei assim que comecei a ganhar dinheiro foi presenteá-la com um Karmann Ghia da Volkswagen, na época sonho de consumo dos jovens.

Bolsa-do-Rio-em -1971-um Karmann-Ghia conversívelA multidão que se aglomerava na calçada da Bolsa do Rio em 1971, e um Karmann-Ghia conversível, símbolo da opulência da época, estacionado junto ao meio-fio

Além de continuar ganhando dinheiro na jurídica continuei arrebentando na bolsa com os meus termos nessa altura mais concentrados em Belgo Mineira, Bco. do Brasil e Petrobrás. Passaram-se mais alguns meses e um dia ao retornar da faculdade para casa ela viu que a vaga do seu carro estava ocupada por uma Mercedes Benz novinha em folha, bege clara com estofamento de couro caramelado modelo 250C, um esportivo grande de duas portas. Era a primeira de uma frota para ela!

Numa sexta-feira de 1969 fomos a uma Discoteca que estava na moda na Praça Serzedelo Correa em Copacabana chamada “Le Bateau”. Estávamos numa mesa grande com outros casais amigos quando ao ir ao banheiro fui interrompido no caminho por um toque nas costas. Quando me virei vi que era o José Mariano Raggio. Embora não o conhecesse pessoalmente sabia quem era e o que fazia.

Era o acionista majoritário da Multiplic S/A – Corretora de Câmbio e Valores e da Financeira Multicred. Era riquíssimo! Adorava cavalo de corridas. Tinha um Haras em Bagé chamado Sideral (que posteriormente foi vendido para o Nagi Nahas e mudou de nome para Haras Inshallah) e os seus cavalos corriam com a camisa do Stud Raggio. Seu pai tinha sido sócio do patriarca da família Peixoto de Castro na Refinaria de Manguinhos e também tinha uma boa participação na Loteria do Estado do Rio de Janeiro. Nessa época seu pai já havia falecido e ele já tinha recebido a parte da herança que lhe cabia referente aos filhos. Ainda faltava os 50% que coube à mãe.

Então me perguntou se poderíamos almoçar na segunda-feira porque queria conversar comigo. Combinamos um almoço no Restaurante do Carmo, um restaurante novo que havia sido inaugurado recentemente na sobreloja de um edifico garagem na Rua do Carmo, se não me engano entre as ruas 7 de setembro e Ouvidor e acho que não existe mais.

Nesse almoço me ofereceu uma opção de compra de 25% da corretora para ir montar e dirigir um departamento de Open Market com a condição de ir pagando a opção de compra à medida que o departamento fosse dando lucro. Na hora respondi-lhe que só aceitaria a proposta se o resto da equipe da Marcello Leite quisesse vir junto, porque sem uma equipe não faria sentido a minha ida. Fiquei de conversar com o pessoal e voltar a conversar com ele assim que tivesse uma resposta do grupo, embora achasse que todo mundo iria querer ser dono do seu próprio negócio. E assim foi! Como éramos seis propus que os 25% fosse divididos em partes iguais.

Dois dias depois telefonei para ele e marcamos um encontro no seu escritório. Nesse encontro acertamos os detalhes e logo após comunicamos ao Dr. Marcello sobre a nossa saída e ficamos lá mais alguns dias até se organizarem para não ficarem sem uma solução de continuidade. Fomos substituídos pelo Alberto Cacciola (foi desse emprego que começa a ascensão do Cacciola até chegar ao Banco Marka) e pelo Luciano Coimbra. Em seguida montaram o resto da sua equipe, mas já estávamos operando na Multiplic.

No início deixei os termos de lado mantendo apenas uma grande posição comprada e dirigi o meu foco para o meu trabalho, já que queríamos exercer as nossas opções o mais rápido possível e com isso a bolsa ficou um pouco esquecida. Foi sorte, porque justamente naquele período a BVRJ passou por uma correção que demorou uns 8 meses e caiu cerca de 26%.

Nesse ínterim, a mesa de open estava bombando! Em três meses a nossa receita já era cerca de 90% da receita da corretora. Em seis meses, já tínhamos dinheiro para exercer as nossas opções, mas concluímos que em vez de exercer as nossas opções se as vendêssemos de volta teríamos dinheiro para comprar uma carta patente e começar uma corretora do zero só nossa.

Liguei para o Mariano marcando uma reunião. A corretora ficava na Av. Rio Branco, 81 na esquina com a Rua da Alfândega e nós ocupávamos o vigésimo segundo e último andar do prédio. No andar de baixo ficava a Multicred onde ficava o escritório do Mariano.

Coloquei-o a parte do nosso desejo e depois de acertarmos o preço ficou decidida a nossa saída. Retornei para o 22º e informei aos meus sócios o preço pelo qual fechamos o negócio. Óbvio que quando fui para a reunião já tínhamos decidido uma faixa de negociação até um limite aceitável. Consegui negociar por um preço justo, um pouco acima do mínimo aceitável. A partir deste momento já começamos a pensar nas alternativas de compra.

Entretanto, umas duas horas depois o Mariano me liga e pede para eu dar uma descida até a sua sala. Para minha surpresa, me propôs inverter o negócio, isto é, em vez dele comprar a nossa parte porque não comprávamos a parte dele. Como fui surpreendido, pedi um tempo para decidir e voltei a me reunir com os meus sócios contando o ocorrido. Para nós, sem dúvida, era o melhor negócio possível! Nessa altura estávamos tomando conta total da corretora, sabíamos que estava redondinha sem nenhum ônus nem passivo à descoberto, não haveria perda de continuidade, enfim, melhor que isso só dois disso!

Reunimos-nos novamente e disse ao Mariano que concordaríamos em comprar a parte dele, mas pelo mesmo preço que aceitamos vender a nossa. Ele argumentou que nós estávamos vendendo uma participação minoritária enquanto ele estaria vendendo o controle da corretora. Depois de muita discussão concordamos em pagar um pouco mais pelo controle, mas sem fugir muito do preço inicialmente combinado.

Nessa altura, se a minha memória não falha, estávamos em torno de fevereiro ou março de 1970. Quando compramos 100% da corretora deixei o comando da mesa de open e fiquei responsável pela área de bolsa.

Voltei a operar, dessa vez mais pesado ainda, sempre alavancando a minha grana por quase cinco vezes. Aos poucos também fui montando uma carteira à vista que também era usada para margem nas operações a termo. Deste momento até o topo de junho de 1971 o IBVRJ subiu cerca de 409%. Imagine operar exponencialmente a cada dois meses com 90% das operações dando certo e as que davam erradas eram dobradas e replicadas e devido ao mercado estar em tendência de alta acabava dando certo. Tudo dava certo! Quando dava errado, dobrava a operação e acabava dando certo. Algumas deram erradas duas vezes seguidas, mas na terceira tentativa já estava quadruplicada e o mercado de alta se encarregava de me encher o bolso de dinheiro.

Nessa mesma época, com o grande volume de recursos deslocado para o mercado acionário, principalmente em decorrência dos incentivos fiscais criados pelo Governo Federal, houve um rápido crescimento da demanda por ações pelos investidores, sem que houvesse aumento simultâneo de novas emissões de ações pelas empresas. Isto desencadeou o “boom” da Bolsa do Rio de Janeiro quando, entre dezembro de 1970 e julho de 1971, houve uma forte onda especulativa e as cotações das ações não pararam de subir.

Para atender a essa demanda de dinheiro novo chegando ao mercado e a quantidade restrita de ações negociadas o governo estimulou a abertura de capital de novas empresas para serem negociadas na bolsa e aproveitar a forte demanda para se capitalizarem. Esta estratégia começou a ser mais utilizada a partir de 1969 e cada ano aumentava o número de novos lançamentos. Eram feito de duas formas:

UNDERWRITING E BLOCK TRADE

*”A colocação de ações no mercado pode ocorrer tanto pela emissão de novas ações pela empresa, como pela oferta pública de ações detidas por um investidor. No processo conhecido com Underwriting , que significa subscrição, há uma emissão de papéis para captar novos recursos de acionistas. É uma operação do mercado primário, realizada por uma instituição financeira, mediante a qual, sozinho ou organizada em consórcio, subscreve títulos de emissão por parte de uma empresa, para posterior revenda no mercado. A instituição financeira subscreve somente as sobras da emissão, já que a lei brasileira assegura aos acionistas o direito de preferência à subscrição das novas ações a serem emitidas, na proporção das ações que possuírem na época.

Existem 3 tipos de subscrição, ou lançamentos públicos de ações:

  1. Underwriting firme: Prevê a subscrição e integração, por parte da instituição financeira (ou consórcio de instituições) responsável pela distribuição, do total das novas ações emitidas por uma empresa. Na verdade, a intermediadora financeira na subscrição do tipo firme assume amplamente o risco de sua colocação no mercado, responsabilizando-se pelo pagamento à sociedade emitente do valor total das ações lançadas.
  1. Best Effort Underwriting: Também conhecida como subscrição do tipo de melhor esforço, nessa modalidade a instituição financeira não assume nenhum tipo de responsabilidade sobre a integração das ações em lançamento, e o risco de sua colocação no mercado corre exclusivamente por conta da sociedade emitente.
  1. Stand-by Underwriting: Nessa forma de subscrição pública, também conhecida com subscrição do tipo residual, a instituição financeira não se responsabiliza, no momento do lançamento, pela integralização total das ações emitidas. Há um comprometimento, entre a instituição e a empresa emitente, de negociar novas ações junto ao mercado durante certo tempo, findo o qual, poderá ocorrer a subscrição total, por parte da instituição, do volume não negociado, ou seja, da parcela das ações que não for absorvida pelos investidores individuais e institucionais.

A empresa, porém, pode abrir seu capital lançando ações junto ao público através de uma operação de Block Trade. Essa operação consiste em colocar no mercado um lote de ações, geralmente de certa magnitude, pertencente a um acionista ou a um grupo de acionistas. As poupanças dos investidores não são canalizadas para o caixa da empresa, e sim para o caixa dos acionistas. É uma operação de mercado secundário. “Costumeiramente os lançamentos são realizados em Bolsa, seguindo os princípios de qualquer leilão”.

*Fonte: Wikipedia

Na década de setenta a liquidação das operações de compra e venda não eram escriturais. As ações nominativas quando adquiridas demoravam de dois a três meses para poderem ser revendidas porque a transferência se processava nos livros de acionistas nas empresas. Para as ações preferenciais não havia uma custódia centralizada. Cada sua corretora tinha a sua sala de custódia, tipo um grande cofre, onde ficavam guardadas as cautelas representativas das ações de cada cliente e que se movimentavam de uma corretora para outra através de transferência física. Normalmente necessitava-se de três dias para se revender uma ação.

Podem imaginar que esse departamento foi o calcanhar de Aquiles de muitas corretoras. Geralmente trabalhavam muitas pessoas dentro da sala e eu nunca soube de algum tipo de revista na saída dos funcionários. Como a maioria das ações custodiadas eram ao portador pode imaginar o que foi roubado das corretoras. Em algumas, os rombos foram tão grandes que tiveram que encerrar suas atividades. A própria Marcello Leite foi uma vítima desses assaltos!

Quando os Bancos e corretoras começaram a se juntar em pools para abrirem o capital de novas empresas ou relançarem (Block Trade) uma empresa cujo capital tinha sido aberto, mas depois a ação ficou sem liquidez tipo a “Mundial Artefatos de Couro S/A”, havia uma forte demanda dos clientes das corretoras para comprarem ações nesses lançamentos. A coisa começou devagar, mas a medida que o mercado foi subindo o processo acelerou. Não consegui encontrar nada consistente na internet, mas a minha memória me faz lembrar que cada ano a partir de 1969 aumentava intensamente o número de novas empresas vindo para o mercado. Numa pesquisa mais recente referente ao ciclo de alta de 2002 encontrei este gráfico na internet referente à quantidade de empresas que abriram o seu capital de 2002 até 2007:

abertura-de-capital

Como pode ver, na medida em que o mercado foi subindo o número de aberturas foi aumentando exponencialmente. Embora não tenha conseguido um gráfico similar da década de setenta pelo que me lembro deve ter sido muito parecido. Quanto mais próximo do final do ciclo de alta maior a quantidade de aberturas de capital.

Na maioria dos lançamentos era preciso fazer rateio porque a demanda pelas ações era muito maior do que a quantidade disponibilizada para o mercado, sem contar que muitas corretoras que participavam do lançamento guardavam uma boa parte da oferta para os seus sócios e tesouraria, porque era comprar e correr para os abraços!

Como ainda não havia transferência escritural, quando um cliente subscrevia ações de um lançamento recebia apenas um recibo de subscrição endossável, mas que demorava cerca de 5 a 6 meses até ser trocado por cautela e começar a negociar na bolsa de valores. Para suprir a diferença de tempo entre a aquisição e a troca por cautela para ser negociada na bolsa, esses recibos começaram a ser negociados pelas mesas de operações através do mercado de balcão, que nada mais era do que uma espécie de open market onde os títulos negociados eram esses recibos, letras de câmbio, etc. E assim como a bolsa subia os recibos também subiam embora não houvesse nenhuma transparência na formação do preço.

Só para lhe dar uma ideia, duas empresas do sul, uma denominada Siderúrgica Rio Grandense e outra Metalúrgica Aço Norte fizeram seus Underwritings por NCr$1,00. Seis meses depois quando começaram a negociar na bolsa eram transacionadas no mercado de balcão por um preço em torno de NCr$5,00. Com o passar do tempo mudaram de nome e hoje são a Siderúrgica e a Metalúrgica Gerdau.

Foi um período que se ganhava dinheiro com muita facilidade. Esses lançamentos chegaram a um estágio em que um operador do BVRJ chamado Pedro Bragança abriu o capital de uma empresa situada no Paraná chamada “Cromagem Tarumã”, como se fosse uma empresa metalúrgica. Fez prospectos com fotos do que parecia ser um grande galpão, mas depois de lançada descobriu-se que o galpão parecia grande devido ao ângulo em que a foto do prospecto foi tirada e que era apenas uma oficina onde se cromavam aros de bicicletas e calotas de automóvel. Como naquela época valia tudo, nada aconteceu com ele! Mas com uma Mercedes Conversível de dois lugares que havia comprado e deixava estacionada sim: levou uma saraivada de balas e para alguns investidores que o caçaram na porta do prédio da Bolsa teve de devolver a grana subtraída. Ainda assim ficou com muito e nunca mais ouvi mencionarem o seu nome.

Falando de ganhar dinheiro fácil, havia outra operação feita de forma legítima, mas que de direito era ilegal, que enriqueceu dezenas de assessores das mesas de algumas Fundações de todos os portes e de muitos Bancos que nessa época, na sua grande maioria, não possuíam corretora própria. Não tenho certeza, mas acho que só a partir de 2005 toda ordem de bolsa executada pela corretora precisa de simultaneamente conter o nome do titular. Naquela época, entretanto, podia-se esperar até 3 dias para colocar o nome do comprador ou do vendedor titular.

Qual era o esquema? Era a coisa mais simples do mundo! Como as ordens das Fundações e dos Bancos eram enormes, o assessor mandava comprar uma determinada ação e ia pagando para cima até chegar a um nível de preço que permitia fazer um belo day trade. Depois que o preço já havia subido bastante, a posição era vendida no mercado por um preço bem acima da média. Só que as compras eram colocadas em nome de um laranja que no final era quem vendia para o mercado gerando lucros mirabolantes. Depois o resultado era dividido. O laranja ficava com 30% do lucro e devolvia por fora os outros 70% para o operador da Fundação ou do Banco. Se por acaso a operação de compra desse errado, isto é, se a compra desse prejuízo era simplesmente colocada na conta da Fundação. O que tinha de operador de Fundação que devia ganhar em valores de hoje algo entre R$5.000,00 a R$10.000,00 morando na Av. Vieira Souto em apartamentos e coberturas era uma grandeza! Felizmente, graças à CVM, hoje isso não pode mais ser feito.

Os underwritings e os bloc trades atingiram um nível de ganância de tal monta sobre os investidores que um dia correu um boato sobre o lançamento de uma empresa chamada Merposa e não faltou quem quisesse comprar, mas na verdade era uma brincadeira que serve para ilustrar a loucura da época! Merposa era nada mais nada menos do que “Merda em Pó S/A”.

Nas décadas de sessenta e setenta ainda não havia o canibalismo fratricida entre as corretoras e todas elas acompanhavam a tabela de corretagens criada pela bolsa. De acordo com a tabela a corretagem variava de 0,5% até 2%, dependendo do volume financeiro da operação. Quanto maior o volume menor a incidência do percentual de corretagem. O percentual era progressivo decrescente. Embora não me lembre dos valores da época as corretoras conseguiam lucrar com as corretagens e sobreviver sem ter que abrir as pernas.

Desses retalhos da memória acho que podem ser extraídas três lições importantes:

  • Em maio de 1971 vendi a minha parte da corretora e decidi me aposentar aos 28 anos. Em moeda da época o meu patrimônio correspondia a cerca de U$8.0000.000,00. Atualizado pela inflação do dólar acredito que hoje deveria corresponder a uns U$100.000.000,00. Levei 5 anos para ganhar e 6 meses para perder. Motivo: IGNORÂNCIA: ganhei sem saber como e perdi sem saber como!

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Se observar o topo de junho de 1971 e quando quebrei em dezembro de 1971 a bolsa havia caído 32,75%. Se alguns anos depois, digamos em 30/11/76 depois de 5 anos de queda com um percentual de 81% a partir do ponto onde quebrei achasse que já tinha caído muito e estava na hora de comprar e tivesse permanecido comprado até 30/04/81 ainda teria uma perda de 65%. Como pode ver tamanho de queda e tempo de queda não significam que a bolsa esteja na iminência de um novo ciclo de alta. Se não tiver conhecimentos para poder avaliar estará embarcado num voo cego!

  • Toda vez que uma bolsa já estiver em tendência de alta por muitos anos e as instituições financeiras aumentarem para muito acima da média o fluxo de abertura de capital de novas empresas no mercado, seja sob o nome de Underwriting, Block Trade ou IPO (Oferta Pública Inicial) ou qualquer outro nome que inventem para lançar novas empresas e tomar a grana dos investidores mais incautos sem que se lembrem do passado, normalmente a maioria que entra no final do ciclo de alta, acenda o farol amarelo e fique pronto para pular fora do mercado no primeiro sinal de fraqueza.

Esse fenômeno só acontece porque em função da alta normalmente intensamente divulgada pela mídia, muito dinheiro novo migra de outros investimentos para a bolsa e enquanto houver demanda e falta de papel a alta é certa. Mas na medida em que esse resto de dinheiro novo que se manteve fora da até este momento é consumido, não existe mais para quem vender porque a galera está totalmente comprada e aí ficam todos pendurados pela broxa no teto do pregão!

  • Se você tem um projeto para num futuro investir em ações, nunca o faça por conta própria sem que antes tenha aprendido o que é e como funciona o mercado. Se não quiser se dar ao trabalho procure por Fundos bem administrados, mas os melhores infelizmente não se destinam aos pobres mortais, apenas aos grandes capitalistas. O valor mínimo exigido deve caber em menos de 2% da população brasileira. Não deixe para fazer o seu aprendizado quando a bolsa estiver explodindo! O momento certo para iniciar os seus estudos é no final de um ciclo de baixa, não o inverso com é procedimento da maioria.

Se observar o gráfico abaixo do Índice Futuro Contínuo poderá identificar os principais ciclos de longo prazo de alta e baixa da bolsa brasileira desde 1990. Nele pode constatar que cada vez que o preço se aproxima, ou melhor ainda, entra na faixa verde, embora não se possa definir com precisão o término de um ciclo de baixa torna-se muito grande a probabilidade do mercado estar próximo de um e, inversamente, quando se aproxima ou penetra na faixa vermelha a probabilidade do mercado estar próximo do término de um ciclo de alta é muito grande.futuro_continuo_mensal

Sugiro aos investidores menos experientes quando o mercado entrar em tendência de baixa que não se deixem influenciar por alguns jornalistas ignorantes que profetizam que o investimento em ações é um investimento de longo prazo. Dependendo do que você definir como longo prazo isso não é verdade. Se for um investimento para passar de uma geração para outra e para outra pode ser verdade. Mas se estiver pensando em anos, tipo 5, 10 ou 20 anos poderá não ser. Um bom exemplo do que estou dizendo pode ser visto no gráfico mensal abaixo da Bolsa do Japão que terminou um ciclo de baixa depois de cair durante 19 anos. Outro exemplo pode ser o Gráfico Mensal do IBVRJ/IBOV algumas páginas atrás onde a bolsa caiu de 1971 a 1981. A frase correta deveria ser: O investimento em ações é um investimento de longo prazo, “se iniciar as suas operações de compra no final de um ciclo de baixa/início de um ciclo de um alta ou se iniciar suas operações de venda no final de um ciclo de alta/início de um ciclo de baixa”.

Mas como saber isso se você é um leigo? Normalmente os leigos decidem aprender sobre o mercado normalmente no final de um ciclo de alta insuflados pela mídia e pelos amigos na hora em que já deveriam a começar a sair do mercado.

Isso nos leva a uma conclusão muito simples: Se quiser aprender a operar no mercado o melhor momento é quando o cenário está um caos porque aprenderá se comportar dentro do ciclo de alta para tirar o máximo proveito do que ele poderá lhe proporcionar.

INVISTA NO SEU APRENDIZADO NO MEIO DE UM TSUNAMI E NÃO NUM MAR DE BRIGADEIRO. APRENDA QUE SE DEVE COMPRAR AO TROAR DOS CANHÕES E A VENDER AO SOM DOS VIOLINOS.

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Finalizando, agradeço a Paulo Cezar dos Santos, conhecido pelos amigos por PC, operador de pregão da “antiga” e atual chefe da mesa de operações da Ágora Corretora, a Celso Martins, outro operador de recinto da “antiga” que contrariando o que dizem os fundamentalistas frustrados é a prova viva de que se operando utilizando-se apenas gráficos e alguns indicadores técnicos pode-se ficar milionário e morar num triplex na Av. Vieira Souto e a Ney Carvalho pelas maravilhosas fotografias, um verdadeiro tesouro, gentilmente cedidas para ilustrar essa colcha de retalhos.

Marcio Noronha

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