Década de Sessenta: Os anos Folheados a Ouro do Open Market

Por fora, bela viola. Por dentro, pão bolorento.

Falar sobre Open Market (Mercado aberto em português) é contar um pouco da minha história.

Nasci no Rio de Janeiro em agosto de 1943 e com dois anos de idade meu pai foi transferido para São Paulo onde eu, minha mãe e alguns anos depois o meu irmão vivemos até eu terminar o ginásio.

Se tem uma coisa da qual não posso reclamar é da minha infância. Morava na rua Cristiano Viana no bairro do Jardim Paulista. Era uma transversal da Av. Rebouças que do outro lado mudava de nome para rua Estados Unidos. A diferença dos nomes era a diferença dos status dos moradores dos dois lados. Um lado só tinha mansões e o outro casas, casinhas e uns dois ou três prédios de três andares sem elevador. Coisa de classe média para classe média baixa.

Morava no térreo do prédio que ficava no número 262. Ali brincava de tudo! Jogava bola, queimada e taco no meio da rua. De meia em meia hora passava um carro, a gente dava uma parada para ele passar e prosseguia. Jogava pião, pulava carniça, brincava de pique esconde, construía e empinava pipas e construía e soltava balões, andava de patins, jogava bolinha de gude de diferentes modos, jogava bafo com as figurinhas dos albuns de jogadores dos principais clubes onde algumas valiam mais porque eram carimbadas, pulava amarelinha com casca de banana, caçava passarinho com estilingue que eu mesmo construía com forquilha de goiabeira, íamos pescar no rio Pinheiros, construíamos os nosso carinhos de rolemã e descíamos a Av. Rebouças de pé em baixo, faziamos longos passeios de bicicleta, o time da nossa rua nos domingos ia jogar contra o de outras nos campos de várzea que existiam na região, cada um com a sua camisa, etc. Sempre fui moleque de rua, mas a minha grande paixão foi o jogo de botão! Essa era a atividade que consumia a maior parte do meu tempo! Adorava fazer os meus botões!

Desde que pude me dar conta sempre tive muita dificuldade na escola. Do primário até me formar como Economista na Faculdade Nacional de Ciências Econômicas (hoje UFRJ), foi um estresse constante. Hoje sei que o meu problema era uma hiperatividade que impedia que me concentrasse em coisas que não me interessavam, mas nas décadas de 40/50 isso ainda não havia sido identicado como uma enfermidade e meus pais achavam que eu não gostava de estudar. Mas nunca desistiram e graças à essa perseverança consegui me formar num curso superior sem saber como.

Um ano antes de terminar o ginásio meus pais se desquitaram e o meu pai voltou para o Rio. Com a minha mãe e o meu irmão continuamos morando em São Paulo até o ano seguinte quando terminei o ginásio no Colégio Paes Leme, na esquina da Rua Augusta com a Av. Paulista onde hoje é o prédio do Bco. Safra.

Como nossos parentes moravam no Rio, minha mãe também decidiu retornar. Mas, até que ela tivesse tudo equacionado vim na frente para não perder o ano letivo e fui morar no apartamento dos meus avós maternos no Leme. Fui matriculado no Colégio Andrews e comecei a cursar o primeiro ano científico e ao término do primeiro semestre já estava praticamente reprovado pela quantidade de faltas.

Quando mudei para o Leme aos poucos fui fazendo amizade com outros meninos da minha idade e e arrumei um “best friend” cujo apelido era “Serrote” cujo nome não me lembro mais. Era sobrinho de um técnico do Fluminense e da seleção brasileira chamado Zezé Moreira.que foi considerado culpado pela perda da seleção brasileira para a seleção húngara de Puskas, o time dos mágicos magiares.

Graças à influência do Serrote, comecei a frequentar na Av. Atlântica entre as ruas Riachuelo e Aureliano Real uma construção antiga onde funcionava um Bookmaker e se podia jogar no bicho e nas corridas de cavalo. Íamos para lá nos dias de corrida e ficávamos sentados num muro baixo apostando em alguns páreos. Costumava jogar ponta e place e algumas vezes ganhava e outras perdia. Era coisa de garoto que vivia de semanada, mas era divertido. Nos dias que ganhávamos íamos comemorar na Lanchonete Fred’s (onde hoje é o hotel Meridien) tomando Vaca-Preta com Waffles ou traçando uma Banana Split caprichada!

Mas, o Leme era ponto final de uma linha de ônibus que se não me engano chamava-se Gávea-Leme que pegávamos na porta de casa e descíamos na porta do Jóquei Club. Aos poucos começamos a ir ao Hipódromo em vez do Bookmaker. Sem dúvida era muito mais divertido e confortável! Podíamos jogar e assistir a corrida ao vivo e aos poucos fui me viciando. Nessa altura já comprava na banca de jornal a revistinha do Jóquei com a programação da semana para estudar os páreos e estava sempre atento a um programa de rádio transmitido por um entendido chamado Bolonha que analisava os páreos e fazia recomendações. Sem me dar conta começava a aflorar uma característica da minha personalidade que só foi percebida muitos anos mais tarde: a de jogador!

Coincidentemente nesta época decidi contar ao meu tio paterno chamado José Maria que eu carinhosamente chamava de tio Zé, solteirão, mulherengo e jogador, onde estava me metendo. Qual não foi a minha surpresa quando ele decidiu me apresentar ao Alexandre Correia, um treinador gaúcho que tomava conta de uma cocheira no Jóquei. No dia em que me levou lá tomamos chimarron e jogamos muita conversa fora e criei um elo de amizade com o treinador.

A partir daí diariamente saía cedo de casa por volta das 6:00 para ir para o colégio, mas seguia em outra direção: rumo às cocheiras em busca de barbadas e de um bom chimarron. Como meus avós já estavam idosos e não criavam ninguém havia muito tempo e eu retornava para o almoço por volta das 12:30, nunca desconfiaram de nada.

Quando minha mãe descobriu o que estava acontecendo decidiu me colocar para estudar num colégio interno em Cataguases de propriedade das famílias Peixoto e Botelho, sócios majoritários da atual Energisa, antiga Força e Luz de Cataguases, no interior de Minas Gerais e que se tornou famoso não só pelo qualidade do estudo, mas também pelo grande painel sobre a Inconfidência Mineira pintado pelo Portinari que ficava no saguão da entrada do Internato.

Apesar de vir para casa apenas 4 vezes por ano (nas férias do meio e do final do ano e nas semanas Santa e da Pátria), a vida lá era legal! Como estava no científico morava num quarto com banheiro e três camas junto com mais dois colegas. No quarto podíamos ter um som, latarias, biscoitos, etc.

Apesar das poucas vindas ao Rio, se andasse bem nos estudos poderia descer para a cidade para me divertir (o colégio ficava situado no alto de um morro). Podia sair aos sábados e domingos o dia inteiro e nas quartas-feiras, mas só das 18:00 às 22:00. Continuei com as mesmas dificuldades de aprendizado, mas deu para ir levando.

Como nunca fui um esportista tinha muitas horas livres no colégio e aos poucos passei a frequentar a Biblioteca. Comecei lendo os livros sobre Sherlock Holmes, depois as obras de Machado de Assis, em seguida Eça de Queiroz, e continuei lendo cada vez mais porque havia descoberto um mundo novo. Foi uma coisa estranha porque até então não conseguia me concentrar num livro de estudo! Mas foi a primeira atividade educacional que me mostrou um lado obsessivo da minha personalidade, outro aspecto desconhecido do meu modo de ser.

Quando terminei o colegial voltei para viver em casa. Meu sonho era ser arquiteto, mas por facilidade escolhi fazer vestibular para Economia, porque no exame de acesso (vestibular) não tinha prova de química nem de física. Além disso, no início da década de sessenta o curso não era dos mais procurados. A relação candidatos vaga era de quatro para um. Fui um dos últimos, mas entrei para a Faculdade.

Minha mãe havia se casado novamente com parceiro bem de vida e quando entrei para a Faculdade ganhei de presente um Interlagos, um carrinho esportivo conversível de dois lugares produzido no Brasil. Era lindo!

Na Faculdade eu era da turma da social. Ia todo dia para as aulas, mas passava a maior parte do tempo fora da sala de aula jogando conversa fora esperando chegar a hora de ir para a praia e partir para a caçada! Adorava namorar, de preferência várias ao mesmo tempo. Naquela época não havia mídia social e dava para variar de bairros. Assim fui levando a faculdade, mas de economia que era o objetivo não sabia bulhufas. Tinha uma grande amiga (que por respeito a ela não vou citar o nome) que sentava ao meu lado e me deu muita cola. Na nossa turma éramos cerca de 100 alunos e as cadeiras eram aquelas de braço que o sentado à direita praticamente fica com o braço do sentado à esquerda diante dos seus olhos. Continuamos amigos até hoje e cada vez que nos encontramos faço questão de reafirmar o quanto lhe devo!

Naquela época, estágio não era uma coisa comum. A maioria dos alunos se formava sem ter feito estágio. Não havia esta mentalidade de hoje em que as empresas vão nas Faculdades oferecer oportunidades de estágios em diferentes setores. O fato é que já estava no último ano do curso e sabia que depois teria que arranjar um trabalho. Entretanto, apesar de formado estava longe de ter condições para pleitear um emprego de economista. Tinha plena consciência da minha ignorância e a medida que a formatura se aproximava aumentava a minha agonia!

Sem muitas alternativas comecei a procurar anúncios de emprego no Jornal do Brasil e no Globo. Tudo que eu via sabia que não daria conta. Mas como quem procura acaba achando, certo dia dei de cara com um anúncio que dizia mais ou menos assim: “Grande empresa do Mercado de Capitais procura por ecomistas ou engenheiros formados com idade mínima de 25 anos e militares com patente de major para cima interessados em trabalhar na área de assessoria financeira com um salário inicial de Cr$750,00, mais comissões e um mês de treinamento. Para um primeiro emprego o salário era compatível com o mercado para o primeiro emprego de um economista, sendo que ainda havia comissão!

Fiquei louco! Só que faltavam alguns meses para me formar e só completaria 25 anos em agosto do ano seguinte. Decidi arriscar assim mesmo! Liguei para o telefone do anúncio e depois de pegarem meu telefone agendaram uma data para ir até a empresa numa manhã da semana seguinte. Foi neste momento que fiquei sabendo que a empresa era a M. Marcello Leite Barbosa – CTVM, uma grande corretora!

No dia aprazado, vesti um terno com gravata e me dirigi ao endereço fornecido: Av. Rio Branco, 123 – 8º andar. Quando saí do elevador entrei num saguão lotado com centenas de candidatos. Pensei comigo: “Puta que o pariu, vai ser foda conseguir este emprego!”. Neste dia, todos que lá compareceram tiveram apenas que preencher um cadastro, dessa vez mais completo. Depois de entregue mandaram aguardar até a semana seguinte por notícias.

Decorridos alguns dias ligaram para a minha casa e marcaram uma nova data para uma entrevista na empresa. Dessa vez, o saguão continuava cheio, mas a turma já tinha sido reduzida pelo menos pela metade. Fiquei sabendo mais tarde que o grande corte dos candidatos foi provocado pela ficha bancária.

Todos os candidatos passaram por uma breve entrevista com o gerente da área Adolpho Oliveira. Novamente avisaram para aguardar um novo telefonema para continuar ou não participando do processo de seleção.

Na semana seguinte recebi mais um telefonema, desta vez para comparecer num endereço na Av. Pres. Vargas. Ao todo tinham sobrado uns 50 candidatos e o local era de uma empresa que aplicava teste psicotécnico. Terminado o teste marcaram um encontro na semana seguinte no auditório que havia na corretora.

Com todos os candidatos presentes na hora e data marcada entra no auditório o Adolpho e depois de um breve agradecimento a todos os candidatos que chegaram até aquela etapa fomos informados que seriam contratados 8 que a partir da semana seguinte passariam por um mês de treinamento. Então chamou nominalmente os que seriam contratados e por incrível que pareça eu estava na lista dos 8!

Senti uma sensação de felicidade e medo simultaneamente por desconhecer o que viria pela frente! Só quando começou o treinamento é que ficamos sabendo que tínhamos sido contratados para trabalhar no “open market” e foi a primeira vez que ouvi alguém mencionar este nome.

Antes de seguir adiante com o ocorrido após a nossa contratação, vamos examinar superficialmente a história da dívida pública brasileira com dados obtidos através da wikipedia:

O primeiro empréstimo externo do Brasil foi obtido em 1824, no valor de 3 milhões de libras esterlinas e ficou conhecido como “empréstimo português”, destinado a cobrir dívidas do período colonial e que na prática significava um pagamento à Portugal pelo reconhecimento de nossa independência. A independência não alterou as estruturas sócias econômicas e restringiu-se a um movimento político muito limitado, mantendo o regime monárquico e o herdeiro português no trono, aliado aos latifundiários conservadores sob o comando de José Bonifácio. A aceitação do pagamento da indenização está ligada aos vínculos mantidos com Portugal e ao mesmo tempo aos interesses ingleses, que somente reconheceram nossa soberania após o acordo com Portugal.

Em 1829 foi realizado novo empréstimo que passou para a história como “o ruinoso” e serviu para cobrir parcelas não pagas do empréstimo anterior. Do total tomado emprestado, o Brasil recebeu apenas 52%, pois o restante serviu para cobrir os juros da dívida anterior.

Dois novos empréstimos importantes foram realizados durante o Império ― em 1843 e 1852 ― utilizados ainda para pagar débitos relativos ao primeiro empréstimo, que somente foi saldado em 1890. Durante esse período o Brasil ainda endividou-se ainda mais com a Guerra contra o Paraguai. A Inglaterra forneceu os navios e empréstimos ao Brasil para o conflito que também interessava a ela.

Durante a república do “café com leite” o endividamento aumentou ainda mais, porém a ideia central ainda era a mesma, garantir os privilégios da elite. O presidente Campos Salles, eleito em 1898, viajou à Inglaterra antes mesmo da posse, para renegociar a dívida com os banqueiros Rothschild, e firmou um acordo que ficou conhecido como “Funding Loan”, que suspendia o pagamento por um período de 13 anos, sendo que o pagamento dos juros seria realizado em 3 anos, em títulos da dívida pública e obtinha um novo empréstimo. Como garantia do cumprimento do acordo, as rendas das alfândegas brasileiras ficaram hipotecadas aos credores ingleses.

Novo endividamento surgiu em 1906, representando o início da “Política de Valorização do Café”. Neste ano, foi assinado o Convênio de Taubaté, entre os governadores de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, que, a partir de empréstimos tomados no exterior, comprariam e estocariam o excedente da produção de café. A valorização, como outras políticas protecionistas, resolvia o problema imediato da burguesia paulista e mantinha o nível de emprego nos setores da economia vinculados ao café, porém prejudicava a maioria da sociedade, na medida em que setores essenciais eram relegados a segundo plano em termos de investimento, além de promover a desvalorização da moeda, originando um processo que ficou conhecido como “socialização das perdas”, quer dizer, a maioria da sociedade pagava pela política que beneficiava a minoria.

Os governos do período continuaram a realizar empréstimos que beneficiavam a elite cafeeira, contrastando com a situação de crise nas exportações durante a Primeira Guerra Mundial e posteriormente, na metade da década de 20.

Com a crise iniciada nos EUA afetando a economia do país, o pagamento da dívida foi suspenso em 1931 por decisão unilateral do Brasil. Em 1934 a Assembleia Nacional Constituinte passou a investigar o endividamento brasileiro, que chegava a 237 milhões de libras esterlinas e já estava documentado de forma detalhada pelo ministro Oswaldo Aranha. O ministro não era um crítico dos empréstimos do exterior, nem defendia o não pagamento da dívida. Depois de viver por alguns anos nos EUA, defendia um estreitamento das relações do Brasil com aquele país, em detrimento dos interesses ingleses, então nossos maiores credores. Condenava apenas a forma pela qual os empréstimos tinham sido aproveitados ― não em obras públicas, como achava que deveria ter ocorrido. Pensava ainda que o país deveria parar de tomar emprestado para pagar empréstimos e deveria pagar com seus próprios recursos. O ministro destacava a característica básica do endividamento: “foram feitos uns para pagar os outros, em parte ou no todo, refundindo-se em novos empréstimos”.

Apesar da ausência de empréstimos externos e das condições desfavoráveis do comércio exterior, nos anos 30 a economia brasileira se expandiu em ritmo maior que na década de 20, “época de maciço ingresso de capital externo”.

Como se pode ver, desde o primeiro empréstimo a dívida pública brasileira foi sendo rolada para frente entremeada por vários calotes naqueles que nela investiram ou pela corrosão provocada pela inflação.

Com a revolução de 1964 e o país necessitando de capital para sair do buraco sem querer emitir papel moeda, mas sem nenhuma credibilidade junto aos investidores que só se lembravam dos calotes e das perdas provocadas pela inflação através dos diferentes governos brasileiros, os militares criaram a Obrigação Reajustável do Tesouro Nacional, um título que continha duas cláusulas de opção de resgate para a proteção contra a desvalorização da moeda. Uma denominada “correção monetária” para proteger o investidor contra os riscos de uma inflação superior ao rendimento nominal do título e outra denominada “correção cambial” para proteger contra a desvalorização do dólar, permitindo ao seu possuidor no momento do resgate optar por uma das duas correções, obviamente a que estivesse proporcionando a melhor rentabilidade.

Através da Lei 4.357/1964 foi instituída a correção monetária e foram criadas as Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional (ORTN) com o valor unitário inicial de Cr$10.000,00. No início os títulos foram emitidos com três prazos de vencimentos diferentes, a saber: 1 ano, 2 anos e 5 anos. Podiam ser adquiridos em qualquer dia na GEROF (Gerência de Operações Financeiras do Bco. Do Brasil) que ficava numa agência situada na Rua Primeiro de Março, próximo da Av. Pres. Vargas. Todos os procedimentos tipo compra, desdobramento, agrupamento, pagamentos dos rendimentos e resgate eram feitos exclusivamente lá.

O valor de emissão das obrigações de 1 ano e 2 anos sofriam correção mensal e as de 5 anos trimestral. As de 1 ano pagavam correção monetária ou cambial mais um juro anual de 6% a.a. As de 2 anos eram emitidas com juros anuais de 7% a.a. com os juros pagos anualmente e as de 5 anos tinham pagamento de juros trimestrais mas podiam ser emitidas dom juros de 6, 7 e 10% a.a. As de 5 anos 10% a.a. nos primeiros 3 anos eram intransferíveis, mas depois podiam ser convertidas ao portador. Abaixo você pode ver uma cautela de 1 ORTN intransferível de cor verde. AS ORTNs ao portador eram iguais, mas as cautelas tinham o fundo azulado sem a marca d’água INTRANSFERÍVEL. Na imagem abaixo as tarjas pretas cobrem a taxa de juros, o nome do subscritor e mais algul detalhe que não me lembro. Mas por ser intransferível essa cautela representa uma ORTN de 5 anos com 10% de juros ao ano.

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Para dar liquidez aos títulos mais longos o Bco. Central permitiu que os depósito compulsórios dos bancos junto ao BC que eram feitos em moeda podiam ser substituídos por ORTNs de 5 anos e criaram um estímulo de pagar um juro maior para aquelas que ficariam inegociáveis durante pelo menos três anos. Basicamente este foi o mecanismo de criação das ORTNs. O passo seguinte seria criar liquidez para os títulos!

Nessa época, praticamente todas as empresas brasileiras com sobra de caixa mantinham o seu capital de giro em dinheiro nas agências bancárias sem receberem nenhuma remuneração, apenas faziam saldo médio com os benefícios pertinentes, tais como linhas de crédito e taxas menores quando da necessidade de um empréstimo.

Com o surgimento desses títulos alguns corretores perceberam que surgira um novo nicho no mercado que poderia gerar novas receitas para eles. Por ser um mercado desconhecido, no início não se tinha uma ideia precisa do potencial desse setor que depois ficou conhecido como Open Market (denominação do mercado similar nos EUA) ou Mercado Aberto.

Nessa época existiam cerca de 40 corretoras no Rio de Janeiro e outras tantas em São Paulo, muitas delas originadas no período em que o Café era o principal produto das nossas exportações e que depois também viraram corretoras de valores.

Para que possa ter uma ideia de como se deu o crescimento do mercado, entre 1966/1967 no Rio de Janeiro tinha cerca de uma dúzia de corretoras e um único banco (Safra) que tinham montados departamentos de Open Market. Nesse começo o mercado ainda era romântico, não havia selvageria. Basta dizer que todas as sextas-feiras a maioria dos operadores se reunia para um almoço de confraternização no segundo andar do restaurante Americana que ficava na Rua da Quitanda, se não me engano entre as Ruas do Rosário e Buenos Aires.

Eram figuras fáceis de encontrar por lá o Décio Pelajo, Eduardo Bicalho, Conceto Mazzarela, Ivan Sant’Anna, o Bode (Antônio José de Almeida Carneiro), Jacob Mizrai (Safra), o Sérgio que trabalhava na filial do Rio de Janeiro da Corretora paulista Coranca, Sérgio Martin da Denasa, O Luiz Antônio que também trabalhava na Pelajo, o Sérgio Bopp, se não me engano de vez em quando o Jorge Paulo Lehmann (na época sócio da Corretora Aliança junto com uma ordem religiosa, se não me engano a Venerável Ordem Terceira Senhor Bom Jesus do Calvário, dona de vários imóveis no centro da cidade no Rio de Janeiro) também pintava por lá e mais alguns outros que não me recordo no momento. Jogávamos conversa fora, o Ivan – um tricolor fanático – sempre muito criativo vinha com suas apostas futebolísticas tipo: num Fla x Flu ele dava 1 gol de lambujem para o Flamengo e a aposta valia 1 contra 5, mas ele deixava você escolher a ponta.

Normalmente os departamentos de Open trabalhavam em duas frentes:

1) Comercial:

Tinha um grupo maior de pessoas que fazia a parte comercial, isto é, saia em busca de empresas que quisessem remunerar o dinheiro que ficava depositado na conta dos bancos sem rendimento. Como os títulos mais curtos venciam um ano após a sua emissão e o dinheiro disponível das empresas ficava disponível por períodos bem menores, o Banco Central permitia às corretoras emitirem cartas de recompra para qualquer tipo de ORTN que eram entregues para o cliente como garantia juntamente com uma carta de recompra para a data que quisesse receber o dinheiro de volta, desta forma podendo casar o tempo em que o do dinheiro do caixa ficaria disponível com a recompra na data combinada pelas partes. Na data combinada de resgate ocorria o inverso. A corretora entregava para a empresa um cheque com o principal acrescido do rendimento dos dias em que o dinheiro ficou aplicado e recebia de volta as ORTNs e a carta de recompra perdia a sua validade.

O lucro das corretoras vinha da diferença entre o rendimento real da ORTN e a taxa de remuneração combinada com os financiadores ou aplicadores. O termo financiador se aplica porque o Banco Central permitia que cada corretora pudesse carregar uma posição de Títulos do Tesouro correspondente a 10 vezes o seu patrimônio. Assim, se o patrimônio de uma corretora fosse Cr$ 10.000.000,00 ela poderia alavancar até 10 vezes carregando uma posição de ORTNs equivalente a Cr$100.000.000,00.

Considerando que o patrimônio de uma corretora fosse Cr$10.000.000,00 o caixa deveria ser menor. Então, como com um caixa digamos, por exemplo, de Cr$6.000.000,00 a corretora podia manter financiada (carregar) uma posição de ORTNs no valor de Cr$100.000.000,00? Era aí que entravam as empresas e os departamentos de Open das corretoras. Diariamente éramos obrigados a cobrir (financiar) o estoque total de títulos da corretora. Como isto era feito? Procurando empresas para aplicarem o caixa disponível para remunerá-los e simultaneamente financiar a posição de ORTNs das corretoras. Se imaginar que naquela época a diferença entre o rendimento das ORTNs e o custo dos financiamentos era algo em torno de 0,5% a.m., dá para se imaginar o lucro das corretoras!

2) A área Institucional:

Era uma mesa de operações que mantinha contato com as mesas de operações das outras instituições que operavam no mercado. Naquela época, cada instituição tinha um ou dois operadores. Na Marcello Leite Barbosa era eu e o meu auxiliar Antonio Gomes, que mais tarde veio a se tornar meu sócio na Corretora Multiplic.

Meu trabalho era fazer o meio de campo entre a área comercial e as outras corretoras. Algum assessor da área comercial me informava que tinha um cliente querendo fazer uma aplicação de Cr$X com data de vencimento Y. A partir desse momento, caso eu não tivesse nenhum título na carteira própria da Corretora saia batendo o mercado para ver se alguma corretora concorrente possuía para me vender e repassar para o cliente.

Quando não estava procurando posições para o nosso grupo eu também podia tentar fazer pontes, isto é, sabendo que uma corretora estava querendo comprar ORTNs para um determinado vencimento eu poderia saber de outra que tivesse e fazia a intermediação na linha, (dois telefones ligados com duas corretoras ao mesmo tempo) isto é, comprava de uma corretora por um preço e simultaneamente vendia para outra por um preço com um plus a mais, ganhando a diferença sem colocar nenhum capital, tipo uma operação de arbitragem.

A espinha dorsal deste trabalho era o telefone. Só que nessa época, conseguir uma linha para discagem num telefone da cidade era uma Odisseia. Demorava muitos minutos para se conseguir o sinal de discagem. Como o fator mais importante da mesa era chegar à frente das outras corretoras, na minha mesa de operações tínhamos cerca de 10 telefones e o Antonio juntamente com mais um auxiliar ficavam a maior parte do dia com os telefones no ouvido à espera de linha para tivéssemos velocidade. Na época, como precisávamos fazer muitas contas trabalhava com o que havia de mais moderno: uma máquina de calcular da marca Facit, onde os cálculos eram feitos através de um teclado e de uma manivela lateral. Ainda não havia surgido a máquina eletrônica. Se não me engano a primeira surgiu em 1967. Era um trambolho quase do tamanho de uma máquina de escrever portátil, mas foi um grande avanço!

E os operadores, como eram remunerados? Como era um mercado novo e no início ninguém tinha uma visão do que poderia vir a ser, tomou-se como referência para pagar aos operadores a mesma remuneração paga aos assessores de clientes do departamento de renda variável: 25% da corretagem gerada pela soma dos seus clientes.

Assim, nas operações feitas através da mesa o lucro da equipe era dividido igualmente entre nós, mas do lucro gerado pelas pontes a comissão sobre o lucro vinha só para mim.

Desnecessário dizer que depois de seis meses eu ganhava por mês mais do que o meu pai ganhava por um ano de trabalho! Só fazer uma analogia dava para comprar um carro popular por mês e ainda sobrava muito dinheiro.

E tudo isso foi só o começo! Como o depósito compulsório dos Bancos tinha passado a ser feito em ORTNs, normalmente subscreviam na GEROF as de 5 anos, sendo que uma parte era aplicada nas intransferíveis devido ao rendimento superior (juros de 10% a.a.). A partir de 1968 as ORTNs intransferíveis podiam ser convertidas ao portador e o que era um mercado romântico derivou para um mercado, usando um termo atual, de “pixulécos”!

Para efeito de compulsório os juros das ORTNs não fazia diferença, pois não eram computados. Todas tinham o mesmo valor. Conforme mencionei no início desta matéria nos primeiros anos do mercado aberto, com raríssimas exceções, nenhum banco tinha montado mesas de open. Na maioria deles, principalmente nos Bancos Estaduais, havia um gerente, normalmente sem muita noção sobre o mercado e os títulos, que tomava conta dessa área. Alguns assessores mais ousados que devido ao tempo de contato tinham estabelecido um vínculo de relacionamento mais íntimo com esses gerentes começaram a sugerir operações de trocas de ações do compulsório.

Como para efeito de depósito compulsório não fazia diferença o rendimento, a operação sugerida era substituir as ORTNs com juros de 10% ao ano por outras com juros de 6 ou 7% ao ano. Se o banco fosse mal administrado, como era a maioria dos bancos estaduais, ninguém perceberia esse tipo de troca, porque para efeito de compulsório não alterava nada. Todavia, trocar um título de rendimento anual de 10% a.a. por outro de rendimento menor em termos financeiros era uma diferença substancial, principalmente se a troca fosse feita em grande escala. Se você imaginar que atualmente é exigido um percentual para recolhimento sobre os depósitos à vista, sobre depósitos para poupança sobre recursos a prazo, qualquer 10% corresponde a bilhões de reais de compulsório.

De alguma forma este tipo de operação ficou conhecido por algumas corretoras e cada uma tinha os seus bancos parceiros.

img-2-2Nesta altura você deve estar se perguntando por que o banco fazia isso, afinal que vantagem levava? Nenhuma! Quem levava vantagem era o gerente e na maioria das vezes o diretor ao qual estava subordinado. Devido ao tamanho das operações trafegavam pela Av. Rio Branco e adjacências malas lotadas de dólares. Quantas vezes não contratávamos um jatinho para irmos a São Paulo liquidar uma operação e voltarmos no mesmo dia, ainda a tempo de fechar o caixa. O “pixuléco” era tão grande que o aluguel do jato saia na urina! Normalmente a Corretora ficava com 30 a 40% do lucro e o pessoal do banco com o resto.

Algumas daquelas corretoras pioneiras experimentaram um crescimento vertiginoso. Só para dar uma ideia a Corretora M. Marcello Leite Barbosa comprou um prédio de 13 andares na Praça da Candelária na Pres. Vargas do grupo Segurador Atlântica-Boavista (atuais donos do Bco. Icatu) e mudou a sua matriz para lá. No último andar tinha sauna e outra “cositas mas”. Acredito que em nenhum outro tempo da história do mercado financeiro brasileiro um grupo de corretoras ganhou tanto dinheiro! Mais adiante, quando a maioria dos bancos já tinham criado suas próprias mesas acabou essa operação, mas num próximo artigo vou explicar como as corretoras e distribuidoras descobriram uma nova fonte de ganhos enriquecedores, agora em parceria com as mesas dos bancos públicos e privados!

 

 

 

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