Teria sido possível detectar o topo de 2008 antes da sua ocorrência?

Em fevereiro de 2008 comecei a ter fortes suspeitas de que o ciclo de alta iniciado em outubro de 2002 estava chegando ao fim, mas em análise gráfica só pode se falar em reversão se ela já tiver sido definitivamente assinalada, o que não havia acontecido até então.

Naquela época, analisando os fundamentos técnicos do mercado podia-se verificar que:

  1. Desde julho de 2007 quando registrou o seu topo, a linha de avanços e declínios do mercado, passou a divergir da evolução do índice Bovespa mostrando que o índice continuava subindo impulsionado somente pelas ações de mais peso que compunham o índice Bovespa, mas que a maioria das ações restantes já estava caindo.
    Comparando-se o índice Bovespa com a sua própria linha de avanços e declínios obtinha-se o seguinte cenário:
    Comparando-se o índice Bovespa com a sua própria linha de avanços e declínios obtinha-se o seguinte cenário:
    Comparando a evolução do índice Bovespa com a evolução da linha de avanços e declínios das 16 ações de mais liquidez (as principais blueships) tínhamos:
    Comparando a evolução do índice Bovespa com a evolução da linha de avanços e declínios das 16 ações de mais liquidez (as principais blueships) tínhamos:

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    Fica óbvio através da leitura desses números que a subida final do índice se deveu fundamentalmente à subida das ações de mais liquidez que representam cerca de 70% do volume diário dos negócios, do que ao mercado como um todo. Mas, também é verdade, que a forma de capitalização do índice Bovespa não permite avaliar o que está acontecendo com a tendência da maioria das ações.

    Em nenhum momento desde outubro de 2002 quando começou o ciclo de alta em andamento, a subida do índice deixou de ser confirmada pelo contínuo aumento das ações em tendência primária, bem como pela linha de avanços e declínios do mercado, enfim, pelo mercado como um todo. Só a partir de julho de 2007 foi que o índice prosseguiu subindo e registrando novas máximas sem a confirmação das estatísticas.

    Se imaginar o mercado como um tronco de árvore e as ações como homens para empurrá-lo morro acima, fica muito mais fácil impulsioná-lo quando existe um grande número de trabalhadores colaborando na tarefa. A partir do momento que alguns trabalhadores vão se cansando e abandonando a tarefa, vai ficando cada vez mais difícil para os trabalhadores restantes levá-la adiante. Até maio de 2008, os trabalhadores restantes (as ações de mais peso na composição do índice Bovespa) conseguiram empurrar o tronco ainda para mais alto apesar do sobrecarga, mas daí ocorreu um quebra-costas e o índice mergulhou morro abaixo derrubando qualquer trabalhador que tivesse ficado pelo caminho.

  2. O saldo acumulado das ações em tendências primária e secundária de alta alcançou o seu topo nas duas últimas semanas de julho de 2007, um pouco depois da maioria das ações já terem atingido o seu topo porque a reversão de tendência de um ativo só fica clara algum tempo depois do topo ter ficado para trás, conforme gráfico abaixo:foto-4-artigo
  3. Até o final de outubro de 2007, os gráficos das principais bolsas mundiais evoluíam praticamente geminados, um confirmando a tendência de alta dos demais.foto-5-artigoMas, a partir daí, enquanto as outras bolsas começaram a derreter a Bovespa permanecia incólume, isolada, aparentemente um porto seguro para os capitais internacionais, conforme abaixo:foto-6-artigoNeste ínterim, o fluxo do capital estrangeiro na Bovespa que havia atingido o seu saldo máximo em maio de 2006 já havia sofrido uma grande fuga. Mas, em março de 2008 ele retorna concentrado nas bluechips até formar o topo final do ciclo de alta iniciado em 10/02.foto-7-artigoEm contra-partida, veja como se comportou o fluxo de capital das pessoas físicas:foto-8-artigo
    Apesar do histórico não voltar muito no tempo dá para se perceber que as pessoas físicas permanecem a maior parte do tempo na contramão do mercado e que são elas que ficam com a batata assando quando o mercado incendeia e derrete. É triste reconhecer, mas se alguém acompanhar o fluxo do capital na Bovespa, mesmo que não tenha nenhum conhecimento de análise técnica, basta seguir o rastro do dinheiro esperto e fugir do das pessoas físicas.
  4. Os ciclos do mercado desde 1990:foto-9-artigo
    O gráfico perpétuo do índice Futuro do Bovespa revela que de 1990 até recentemente nosso mercado passou cinco ciclos de longo prazo. Transferindo estas informações para o índice Bovespa temos:foto-10-artigo
    Como podemos ver as correções, na média, duraram a metade do tempo do ciclo de alta prévia e também em média retraçaram 2/3 do que haviam subido. Se tivesse que fazer uma projeção para o final do ciclo de baixa em andamento ninguém poderia me chamar de louco se afirmasse que por analogia nos próximos 2/3 anos o índice poderá corrigir até uns 30000 pontos.
  5. As correções da principais bolsas:Esta suposição pode parecer suspeita, mas comparando com as correções sofridas pelas principais bolsas internacionais, ou se preferir com as bolsas dos países que formam o BRIC, infelizmente sem a Rússia, veremos que a Bovespa foi a bolsa que mais subiu nos últimos anos e a que até este momento sofreu a menor correção:foto-11-artigoHoje, o quadro se nivelou, conforme pode ver abaixo:foto-12-artigoAlguns meses atrás fiz uma entrevista telefônica com a jornalista Daniele Camba que foi publicada no jornal Valor Econômico com o seguinte teor:Estudo feito pelo analista técnico da Link Investimentos, Márcio Noronha, com nove dos principais índices de bolsa do mundo – dos EUA, Brasil, Inglaterra, França, Alemanha, China e Japão -, mostra que o Ibovespa é o que mais subiu em seu último grande movimento de valorização (entre outubro de 2002 e maio deste ano) e o que menos caiu nessa onda recente de queda. “O Ibovespa tem muito mais gordura para queimar, mas não adianta o investidor se iludir porque, mais dia menos dia, o índice brasileiro vai acabar tirando diferença em relação ao resto do mundo”, diz Noronha.Para se ter idéia, entre 16 de outubro de 2002, que foi o fundo do poço do Ibovespa, quando chegou aos 8.224 pontos, até 29 de maio deste ano, quando atingiu seu nível máximo de 73.920 pontos, o índice subiu a bagatela de 798,8%. Essa é, disparada, a maior alta percentual entre os nove índices analisados por Noronha. Ele observou a variação dos indicadores entre o piso e a máxima de cada um deles, independentemente do período. O segundo que mais subiu, por exemplo, foi o da bolsa de Shangai, que se valorizou 513,5%. O Índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York (Nyse), teve uma alta de 97,26%.Já a desvalorização tem sido muito mais implacável com os demais índices do que com o indicador brasileiro. Entre a sua máxima, em 29 de maio, e o seu último piso, na quinta-feira, quando atingiu 59.242 pontos, o Ibovespa caiu 22,3%. Essa é a menor desvalorização entre os nove índices analisados. O índice da bolsa de Shangai, por exemplo, já caiu 66,9% desde o seu ponto máximo até o seu fundo do poço.”Mesmo com intensidades diferentes, as bolsas subiram juntas, de forma harmoniosa, como se o mundo fosse um único grande mercado”, diz Noronha. “Mas, agora, que as bolsas começaram a cair, a Bovespa descolou, caindo muito menos”, afirma o analista. Ele acredita que isso aconteceu graças à entrada de capital estrangeiro, que queria se aproveitar da possibilidade de o Brasil se tornar grau de investimento, o que ocorreu pela primeira vez no fim de abril. Mas o cenário está mudando. “Os estrangeiros, que foram entrando aos poucos, estão tirando dinheiro aos montes e muito rapidamente, o que deve contribuir para que a Bovespa entre num longo e profundo movimento de correção”, afirma Noronha.

    Sem considerar o que está acontecendo com as bolsas no resto do mundo, os últimos ciclos da Bovespa corroboram a tese de que há fortes motivos para os investidores se preocuparem. Os gráficos mostram que, desde 1990, as quedas do Ibovespa corroem, em média, 63% do movimento de alta anterior. Além disso, o índice cai duas vezes mais rápido do que quando se valoriza – quer dizer, sobe de escada e desce de elevador. Se estes dois fatores se repetirem, sobre o último movimento de valorização de 67 meses (entre outubro de 2002 e maio último), é possível dizer que o Ibovespa cairá para os 30 mil pontos pelos próximos 30 meses, ou seja, até o fim de 2010, lembra Noronha. A questão é se as quedas de junho e da primeira semana de julho já fazem parte dessa nova grande onda de correção dos preços. Noronha não tem a menor dúvida que sim. “Essas últimas desvalorizações são só o começo de uma grande fase de baixa, o melhor que o investidor tem a fazer é vender suas ações e, quem não tem, deve vendê-las a descoberto”, recomenda o analista. Agora é aguardar para ver.

    No dia seguinte recebi um email com o seguinte teor:

 

Marcio,

Hoje foi publicado no jornal Valor Econômico a pergunta abaixo de um leitor. Por favor, poderia responder?

Obrigada,

Cartas de leitores

Valor Econômico – SP – 1º Caderno – 10/07/2008

Previsão Ibovespa

“Na coluna de Daniela Camba da edição de 07/07 do Valor, o analista da Link Investimentos, Marcio Noronha, aconselha vender todas as ações que temos em carteira, pois acredita que o Ibovespa atingirá 30 mil pontos até 2010. Tudo isso baseado em um estudo, feito pelo próprio Noronha, feito com as principais índices de Bolsas do mundo. Aproveito para questionar se esse terrorismo feito pelo Sr. Marcio Noronha não faz parte da estratégia para seu estudo se concretizar?”

Isaque Fernandes Pereira Jr – isaque@sayerlack.com.br

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