Estope, uma visão incomum!

O propósito deste artigo é mostrar ao investidor uma visão diferente do conceito mais importante do jogo do mercado caso pretenda se tornar um vencedor sistemático.

Originário da palavra inglesa “stop”, seu significado é parar, interromper, sustar, etc., um movimento. Nos meus livros introduzi o galicismo “estope” na falta de uma tradução melhor. Qualquer livro que aborde operações de compra e venda nos mercados de renda variável terá sempre um capítulo dedicado ou um texto especial sobre este conceito básico, primário, fundamental, ou qualquer outro adjetivo para torná-lo algo indispensável, sem o qual o jogo do mercado não pode ser jogado.

No livro que publiquei em 1996 denominado “Análise Técnica: Teorias, Ferramentas e Estratégias”, no início de alguns capítulos tive a preocupação em chamar a atenção dos leitores com algumas das colocações a seguir:

“Estope é o limite máximo de erro permitido à sua avaliação de entrar no mercado com base nas maiores probabilidades de acerto”.

“Nunca inicie ou adicione numa operação sem definir, simultaneamente, um estope, para protegê-lo se estiver errado”.

“Nunca mova um estope exceto na direção da operação em andamento”.

“Nunca permita que um pequeno prejuízo transforme-se numa perda catastrófica. Saia fora e volte para o mercado noutro momento”.

“Estope é a sua garantia de sobrevivência no jogo do mercado”.

Tanto no meu livro como nos outros que tratam do assunto, o ESTOPE sempre foi ensinado como um conceito para impedir que o leitor sofresse grandes perdas nas operações, mas sempre com a visão de proteção operacional imediata!

Agora vou lhes contar uma das histórias reais que está incluída no meu segundo livro “É Só Isso?!” publicado em 2015, que tem tudo a ver com os parágrafos anteriores, mas numa abordagem diferente.

No final do século XX, comecei a ministrar um curso de Análise Técnica à distância. Este curso era composto de 3 módulos, com cada módulo vendido por R$100,00. Cada módulo era composto por quatro capítulos que eram impressos e enviados pelo correio para ser estudado ao longo de um mês. Simultaneamente havia criado um ambiente virtual para dar suporte ao curso através de esclarecimentos das dúvidas via perguntas e respostas que ficavam agrupadas por assunto. Dessa forma, algumas dúvidas que poderiam se repetir de um aluno para outro podiam ser esclarecidas através de uma simples consulta. Se fosse algo novo era esclarecido e adicionado ao conjunto de acordo com o tema.

Entre os alunos havia um tenente do exército que estava servindo num quartel em Manaus onde dispunha de tempo vago para poder se dedicar ao estudo da Análise Técnica. Tratava-se de Fábio Calderaro, um jovem que no decorrer do curso se revelou como o mais interessado dos meus alunos. Quase diariamente recebia um email dele com alguma dúvida ou comentário. Essa dinâmica diária acabou nos aproximando, apesar da distância que nos separava. Era raro o dia quando abria o Outlook e não me deparava com uma mensagem do Fábio. Nunca deixei de responder, mas a iniciativa era sempre dele. Quando não recebia nenhuma mensagem ficava sem me comunicar.

Subitamente seus emails pararam de chegar, bem no momento que a bolsa começou uma queda mais forte. Para ser franco, não me preocupei com a ausência de mensagens. Na verdade era menos um email para responder. Mas, o tempo foi passando e depois de umas duas semanas me dei conta que ele havia desaparecido, porém não fiz nada! Continuei com a minha rotina diária.

Aproximadamente um mês após sua última mensagem quando abro o Outlook o Fábio, como uma Fênix, ressurge das cinzas! No email me contou que havia sumido porque sofrera um acidente de carro que o deixou em coma por três semanas, mas que estava bem e em breve viria ao Rio de Janeiro porque apesar de lúcido e fisicamente bem, ficara com um pequeno coágulo no cérebro. Viria ao Hospital Central do Exército para fazer uma Tomografia para averiguar seria necessária uma cirurgia para extração do coágulo ou se não seria necessária, isto é, se era um coágulo que se dissolveria com o tempo.

Em resposta ao seu email, ciente que o índice Bovespa já tinha caído 28% desde o nosso último contato e sabedor que ele estava com todo o seu capital aplicado na bolsa, perguntei-lhe se o prejuízo tinha sido grande.

Não sei se por ser um tenente, acostumado à disciplina militar, ou por ter compreendido a importância do estope logo no início do seu aprendizado, algo realmente incomum para os iniciados, me contou que dois dias depois de voltar do coma ligou para a Corretora Ágora para saber como estava a sua posição de custódia. Qual não foi a sua surpresa ao saber que estava zerada. Todas as suas posições tinham sido zeradas pelo estope automático que havia deixado na plataforma do Homebroker. Em outras palavras, sua perda foi ínfima em relação ao tamanho da queda já que suas posições com estopes atualizados até a data do acidente foram logo zeradas!

Foi quando me dei conta de que tudo que havia lido e aprendido sobre estope até então estava focado em proteger o capital, mas de um modo operacional. Nunca li nem havia imaginado uma alternativa de estope provocada por um fator externo. Qual de nós está livre de um acidente deste tipo ou até mesmo algo pior. Afinal, para morrer basta estar vivo!

Suponha que seja um chefe de família com esposa e filhos pequenos e que a sua mulher não tenha a menor ideia sobre o mercado de renda variável Se der um azar de acontecer algo semelhante e o mercado entrar num ciclo de baixa, é possível que um patrimônio que pudesse manter a sua família na sua ausência acabasse se diluindo até que a sua esposa tomasse conhecimento do acontecido. Se tivesse um estope, a família estaria protegida, não as suas operações.

Essa é a visão diferente que dei como título para este artigo. Em vez do estope ser um protetor pessoal dos seus negócios, também pode ser um protetor do bem estar da sua família.

Finalizando, tenho um grande prazer de participar que anos depois, uma foto do Fábio foi a capa de uma edição da revista “Isto É”, como um investidor que consegui transformar R$4.000,00 em R$1.000.000,00 em apenas alguns anos!

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